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Conheça histórias de mulheres à frente de negócios cervejeiros no Brasil

 

Cerveja é coisa de mulher, pelo menos é o que nos diz a História. Como a bebida era considerada um alimento, sua produção por muito tempo fez parte das “tarefas domésticas” desempenhadas pelas mulheres.

A cerveja foi desenvolvida milênios atrás na Suméria e Mesopotâmia, e posteriormente no Antigo Egito, pelas mãos das mulheres. Até os gregos, pouco fãs da bebida, associavam a cerveja ao feminino enquanto o vinho era a bebida considerada masculina.

Na Idade Média, as “ale wives” eram responsáveis pela fabricação da bebida e por gerenciar os estabelecimentos que mais tarde se tornaram os famosos pubs ingleses.
Já a monja alemã Hildegarda de Bigen, foi responsável pela descoberta das propriedades conservantes do lúpulo, marco importante na história da cerveja.

Ao longo dos séculos, porém, a cerveja foi se tornando cada vez mais um território dos homens. Mas com a popularização das cervejas artesanais nos últimos anos e os movimentos por maior representação feminina em todos os espaços da sociedade, as mulheres passaram a retomar sua relação com a cerveja, consumindo, produzindo a bebida e gerenciando negócios cervejeiros ao redor do mundo.

Reunimos a seguir um pouco da história de algumas mulheres que têm a cerveja como negócio e comandam empresas cervejeiras no Brasil.

Amanda Reitenbach - Science of Beer Institute

CEO do Science of Beer, instituição que oferece cursos de cerveja no Brasil e em países da América Latina, Amanda Reitenbach iniciou os estudos de cerveja já na graduação em Engenharia de Alimentos e tornou-se referência em análise e gestão sensorial.

Doutora  e pesquisadora, lidera no Science of Beer uma equipe de gestão e operação composta por mulheres. “Acredito que nós somos uma das poucas - senão a única - empresa brasileira do setor totalmente feminina. Isso é, de certa forma, meu manifesto para dar mais oportunidade e voz às mulheres no mercado de cervejas”, destaca Amanda.

Amanda é juíza em competições cervejeiras nacionais de cerveja e também atua em projetos de consultoria e pesquisa. Para ela, empreender e ocupar espaços de liderança no setor ainda é um desafio para as mulheres. “Ser empreendedora e ter uma empresa feminina no setor cervejeiro sempre foi um desafio, e ainda é, principalmente quando as conexões e o trato diário são com homens. Porque ainda existe muito machismo e percebo isso em alguns projetos que executo”, pontua a CEO do Science of Beer.

Para Amanda, é essencial que o mercado evolua em termos de diversidade. “Precisamos entender que capacidade técnica é algo que é independente do gênero, da orientação sexual, crença religiosa, cor de pele e tudo mais. Qualquer pessoa pode (e deve) trabalhar com cerveja tendo a liberdade e as portas abertas para expressar a sua capacidade técnica onde quer que esteja”.

Leia também a entrevista completa da Amanda sobre a participação da mulheres no mercado cervejeiro do Brasil.

 


Bianca (centro) com a irmã Bárbara e a prima Beatrice

Bianca Buzin - Cervejaria Noi

Bianca Buzin é diretora de gestão da Noi, administrando junto com sua irmã Bárbara e sua prima Beatrice a cervejaria familiar localizada em Niterói, no Rio de Janeiro. “As três trabalham juntas, levantam discussões, e debatem ideias de forma muito eficiente. Nunca brigamos, e as discussões são boas para a empresa. O interessante é o desafio do familiar, então buscamos sempre melhorar, nos tirar da zona de conforto e nunca nunca nunca acomodar”, destaca a empresária.

Nascida como um restaurante que servia cervejas artesanais, a Noi inaugurou sua fábrica em 2011 e hoje produz 17 rótulos, incluindo uma weiss que leva o nome de Bianca.

A empresária conta que passou perceber mais a questão de gênero quando muitas pessoas começaram a perguntar sobre a experiência de gestão da cervejaria. “O preconceito por ser mulher e por ser filha do dono da empresa existe, mas a nossa postura é de se posicionar de maneira firme, competente e profissional, como um homem ou uma mulher fariam. Acho que transpiramos isso, e os resultado e números do negócio dizem mais que qualquer gênero”, ressalta Bianca.

“Minha irmã costuma fazer networking com o meio cervejeiro feminino pelo Brasil, sempre se mantendo conectada com as mulheres cervejeiras do país”, conta a empresária. Já Bianca participa do grupo Somos Empreendedoras, que fomenta o fortalecimento de mulheres líderes, criando uma rede de apoio, palestras e discussões. “É importante sair da fábrica e se conectar. Conexão é algo valioso para o empresário, seja ele homem ou mulher”.

 

Érica Barbosa - Marketing Cervejeiro

Foi a partir da necessidade de trabalhar em um bar para custear a pós-graduação em Marketing Digital que Érica Barbosa uniu cerveja e marketing e fez dessa sua profissão.

Depois de trabalhar na Premium Brands e no The Beer Planet, criou em 2016 o Marketing Cervejeiro, negócio que começou como um agência de consultoria que oferecia o curso Marketing de Cerveja. “Hoje somos uma instituição de ensino que oferece esse e outros cursos com foco em comunicação, estratégia e gestão de negócios cervejeiros”, explica Érica .

Para ela, o marketing ainda é uma área que precisa ser melhor explorada pelas cervejarias. “É claro que produzir ótimas cervejas é importante para conquistar clientes e ter continuidade da linha, porque se alguém cria expectativa quanto a uma cerveja e ao degustar não gosta, dificilmente vai dar outra chance para a cervejaria. Mas tão importante quanto isso é saber como vender, pois sem dinheiro em caixa, não há como produzir - e sem público, não há para quem vender”.

Do ponto de vista da participação das mulheres no mercado, Érica destaca que costuma ter muitas inscrições de mulheres em seus cursos. “Ainda é mais comum ver o público feminino trabalhando na gestão de negócios cervejeiros do que na produção, mas sempre oriento as alunas a seguirem a área que desejam independente de gênero, inclusive vi algumas abrindo cervejaria e produzindo, é uma das minhas maiores recompensas como professora.”

De acordo com Érica, ter grandes nomes de mulheres no mercado nacional contribui para aumentar a presença feminina no setor. Apesar das dificuldades em relação a conquista de credibilidade, ela é otimista quanto ao respeito das profissionais dentro do ramo cervejeiro.

“A conscientização que mais necessitamos hoje é a do público consumidor, que muitas vezes acha que existe "cerveja de mulher", que não entendemos da bebida, dentre outros preconceitos corriqueiros. A mudança de posicionamento das grandes cervejarias ao colocar a mulher no papel de quem consome ou produz é um dos caminhos que pode ajudar nessa desconstrução de estereótipos.”

 

Fabiana Arreguy - Pão e Cerveja

Jornalista, sommelière e professora, Fabiana Arreguy criou há dez anos a Pão e Cerveja, primeira coluna de rádio no Brasil a falar sobre cerveja.

Fabiana conta que no início foi difícil entrar no mercado como jornalista, pois não havia muita noção por parte das pouco menos de 100 cervejarias artesanais existentes no Brasil do que era notícia, do que era publicamente relevante. “Foi necessário um trabalho de aproximação muito grande para conhecer os produtores, saber o que eles estavam fazendo e transformar tudo isso em pauta. Mas, valeu a pena. Abri um caminho que tem sido bem explorado por outros profissionais de comunicação”, destaca.

Sommelière, Fabiana mantém desde 2012, com outros dois sócios, a escola Academia Sommelier de Cerveja, em Belo Horizonte. Também ajudou a fundar em 2007 a Confece, Confraria Feminina da Cerveja, um dos primeiros grupo brasileiro a fazer conexão entre entre mulheres e mercado cervejeiro.

A jornalista reconhece que, ao falar sobre cerveja todos os dias em uma rádio de grande alcance na capital mineira, acaba colaborando para o fortalecimento da participação feminina no mercado. Ela ressalta que hoje o setor cervejeiro conta com muito mais mulheres atuantes no mercado do que quando começou. “Essa participação feminina não tem como retroceder, pois é muita mulher competente mostrando que entende muito. É claro que os desafios são enormes e ainda há muitas dificuldades impostas”.

Fabiana destaca ainda que espera que o mercado se abra cada vez mais para a participação feminina. “Temos espaço para isso, muitas profissionais competentes e força de trabalho. Mais da metade das famílias brasileiras é comandada hoje por mulheres, ou seja, nós temos movimentado a economia. Por que não fazer o mesmo com o mercado cervejeiro?”

 

Gabriela Müller - LevTeck

Levedura é o negócio de Gabriela Müller, pesquisadora e proprietária da Levteck Tecnologia Viva. Cervejeira caseira, Gabriela encontrou no hobbie um espaço de negócio, iniciando com consultorias e depois com a fábrica de leveduras. “A parte mais difícil foi virar empreendedora e gestora do negócio. Bioprocesso eu tiro de letra, rsrs…”

Além de participar e apoiar iniciativas de mulheres cervejeiras, a LevTeck também a preocupação de apoiar a produção e os insumos nacionais. Gabriela explica que um dos principais desafios do seu negócio é convencer os cervejeiros de que existem excelentes produtos nacionais em termos de matérias-primas para a produção de cervejas.

“Precisamos vencer a barreira que ainda temos com multinacionais e aumentar o alcance das empresas brasileiras dentro das fábricas. Também temos dificuldade em encontrar tecnologia fabril com preços acessíveis. A Levteck trabalha muito com parceiros nacionais (obviamente) incluindo produtores de equipamentos e tecnologia fabril, mas ainda assim os valores são bastante elevados”, destaca.

 

Luiza Tolosa - Cervejaria Dádiva

Antes de empreender, a administradora Luiza Tolosa trabalhou em um banco, uma consultoria e uma ONG. Acabou no ramo cervejeiro pelo interesse em produtos artesanais e pelo grande potencial de mercado da bebida.

A sócia-proprietária da Dádiva iniciou o projeto da cervejaria com outros dois sócios que saíram antes da fábrica entrar em operação. Com 25 anos na época, um dos grandes desafios de Luiza foi conhecer o mercado. “Eu não trabalhava com isso antes e não era uma grande consumidora de cerveja artesanal, então precisei conhecer as pessoas, os players e tudo o que faz parte desse cenário”, exlica.

Cinco anos depois, a cervejaria localizada no interior de São Paulo conta hoje com mais de 50% da equipe formada por mulheres. “Isso é bastante representativo num mercado conhecido por ser masculino e machista. Buscamos equidade de gênero dentro da Dádiva e aos poucos fomos conseguindo contratar mulheres para as áreas em que não tínhamos presença feminina ainda. Hoje estamos por todas as partes’, ressalta Luiza.

Para a empresária, o mercado cervejeiro evoluiu em termos de participação da mulheres, mas ainda têm muito a melhorar. “Os nossos desafios são os mesmos que qualquer mulher têm na sociedade como um todo. Muitas vezes temos que provar primeiro que estamos aptas a falar sobre um assunto e depois poder falar sobre ele. Ainda não é todo mundo que entende e aceita que uma mulher pode saber tanto de cerveja quanto um homem.”

Ativa em projetos e coletivos de mulheres cervejeiras, Luiza destaca a importância do apoio entre as profissionais. “Se você é mulher e quer trabalhar com cerveja, se alie a outras mulheres que estão fazendo isso, se fortaleça com isso. Apoiem umas às outras. Óbvio que existe espaço no mercado (não teria porque não haver) e quando uma ajuda a outra a gente consegue chegar mais longe”. 

Você também é uma empreendedora do ramo cervejeiro? Conte sua história para gente: